ALGUMA COISA SOBRE COMBUSTÍVEL
de José Américo Mendes
O combustível é um assunto interminável, e como me pediram que dissesse algo sobre ele, aqui vão algumas considerações sobre o moço.
Sem dúvida a coisa que mais afeta nossos motores é a mistura queimada. Aliás, não é ela propriamente, mas o álcool que faz parte dela e que tem o papel não só de agente detonante, mas também de veículo do óleo lubrificante para que o motor tenha uma vida mais ou menos longa, dependendo do trato que você lhe dê. Em tese, essa mistura álcool-óleo, se correta, fará seu motor rodar numa temperatura adequada e com um rendimento satisfatório, porque o óleo não é apenas lubrificante, mas também refrigerante.
Quando se fala em combustível há quase sempre uma pergunta que é fatal: qual a melhor mistura? Não há. Os motores são muito individualistas e cada um tem seu próprio “paladar”, influenciado pela temperatura e altitude. Embora hoje em dia a maioria dos pilotos adote os combustíveis prontos, ainda há um número bem significativo de praticantes que faz sua própria mistura, geralmente nas proporções 3:1 e 4:1 (álcool e óleo, respectivamente). Caso você use um combustível pronto e nitrado, procure não passar dos dez porcento de nitro e, caso queira um percentual menor, acrescente uma submistura de álcool/óleo ao combustível de forma a reduzir o percentual de nitro.
Geralmente o percentual de óleo nos combustíveis prontos fica em torno de 16% e ele, por sua importância, merece, por si só, algumas considerações: desde os primórdios do vôo motorizado (lá pela década de 30), o óleo de rícino (castor oil, para os gringos) mostrou-se o mais adequado e até hoje desempenha um papel importante nas misturas, muito embora já não reine sozinho, uma vez que o sintético chegou para ficar. A meu ver, todavia, não há conflito entre eles, pois cada um possui suas próprias qualidades: o óleo de rícino se porta maravilhosamente nas altas temperaturas, sem se decompor com o calor, e ajuda a baixar a caloria do motor. O sintético, por seu lado, “corre” melhor, distribuindo-se de forma mais homogênea pelo motor, além de possuir detergentes que ajudam na limpeza interna e reduzem a carbonização. O que fazer então? Simplesmente juntar os dois, que se misturam sem problemas, já que os motores modernos, a meu ver, usam pouco óleo.
Se você adota, por exemplo, uma mistura que tenha apenas 16% de óleo (sic!), geralmente sintético, complete e proporção de 4:1 adicionando mais 6% de óleo de rícino, elevando o percentual para 22%, que fica muito mais próximo do ideal… Além disso, pesquisas têm demonstrado que o sintético diminui a vida útil das velas, pois seus aditivos atacam o ródio, metal que entra na composição dos filamentos. Aí está mais uma razão para que seja adotada uma mistura sintético/rícino sempre que possível.
Outra coisa: se seu motor possui rolamentos, é preciso cuidar deles: o metanol, como todo álcool, tem uma boa percentagem de água, que durante sua queima, produz ácido nítrico, que enferruja os rolamentos, e rolamentos enferrujados não servem pra nada. Coloque, então, depois de um dia de vôo, algumas gotas de “after run” no carburador e no cabeçote, sem a vela, virando a hélice umas dez ou doze vezes. Faça disso um hábito e terá rolamentos por um bom tempo. Não use óleo de rícino em lugar do “after run”. Por ser mais espesso ele tende a formar uma goma que vai acelerar a carbonização do motor, ao ser queimada. O “after run” é estudado justamente para limpar o motor internamente e proteger os rolamentos.
O armazenamento da mistura também é importante. Procure guardá-la em um lugar seco e escuro, e já que falei em armazenamento, lá vai: é evidente que estamos na “Idade do Plástico”, em tudo o que nos rodeia ele está presente, inclusive nas embalagens, que são baratas e descartáveis (outra característica de nossos dias: a descartabilidade…) e por isso os fabricantes de combustível as adotaram. E o fizeram porque seus estoques giram rapidamente, mas o plástico tem graves defeitos, entre os quais o fato de “transpirar”, permitindo, a longo prazo e sob efeitos externos uma certa decomposição do conteúdo, seja álcool, ou mistura. Já com o vidro isso não acontece porque suas moléculas são muito mais aglutinadas. Por isso, se você confia no álcool que usa e pretende estocá-lo, ou mesmo guardar sua mistura de modo mais seguro, guarde-os em vidros escuros. Uma boa pedida são os garrafões de vinho âmbar. Alguns deles, que trazem produtos degradáveis, tem rosca no gargalo e tampas herméticas, que permitem uma ótima conservação. Em último caso há um quebra-galho: os galões de thinner, com suas tampas de rosca rebatíveis, são ótimos… A maioria dos pilotos leva seus galões direto para a pista e os deixa lá, no sol, o que é um erro. Se não tiver um reservatório que dê para um dia de vôo, deixe o galão pelo menos na sombra, para evitar que a luz e o calor decomponham a mistura com a condensação da água do álcool e que esse desdobramento venha, por conseqüência, prejudicar os vôos. Aliás não é só o combustível que é atacado pela luz e pelo calor: a cerveja também (alô, turma do copo!), é por isso que ela vem em cascos escuros…
E começamos esse papo falando da importância da mistura e do álcool que usamos, isso porque nem sempre o álcool usado é necessáriamente puro o bastante, ou seja, com a quantidade de água aceitável em um combustível. Há, normalmente nas lojas, dois tipos de metanol: o comercial e o p.a. ( para análise ). O comercial é usado para a limpeza das serpentinas dos aparelhos de refrigeração e, evidentemente não tem a pureza do p.a., que é específico para uso em laboratórios. Este último é o que nos interessa. E como saber se aquele alcool é mesmo um p.a. ? É difícil. O que se pode saber é se o teor de água é baixo, ou não. Para isso há um teste prático : encha uma colher de sopa com o álcool inflame-o. Se a chama for azulada e transparente, seu teor de água é baixo - na faixa de um p.a. Se ao contrário a chama for vermelha e crepitar, é sinal que o percentual de água é alto e está fora do recomendável (lembre-se do ácido nítrico que vai enferrujar seus rolamentos). Mas, como diz a turma do Casseta, nem tudo está perdido: arranje um pedaço de camurça (à venda nas casas de couro), ponha em um funil e coe o álcool. A camurça tem a propriedade de reter a água caso sua quantidade não seja calamitosa. Pode coar inclusive mais de uma vez, trocando a camurça e experimentando no “teste da colher”, até ficar satisfeito, embora saiba que seu álcool jamais será um p.a.. E tudo isso só funciona antes da mistura. Depois do álcool misturado, já era…
Pra terminar: se seu motor está correspondendo, não há porque mudar, mas vale ficar atento aos sinais que ele possa dar: superaquecimento, funcionamento irregular, queima de velas, troca constante de rolamentos, etc. Se faz sua mistura, certifique-se de que seu fornecedor seja de confiança. O velho Churchill dizia que o preço da tranqüilidade é a eterna vigilância, e isso vale para o aeromodelismo.
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